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Existe um momento na imigração que quase ninguém nomeia.
Ele acontece antes da mudança.
Quando, aparentemente, está tudo certo.
Mas internamente algo começa a oscilar.
Uma inquietação.
Uma ansiedade silenciosa.
Um aperto difícil de explicar.
E um pensamento: "Mas fui eu que escolhi isso".
Na clínica, esse momento é entendido como ambivalência emocional.
O sistema de apego reage à separação.
O sistema de ameaça responde ao desconhecido.
E o sistema de recompensa sustenta a expectativa.
O resultado não é equilíbrio.
É sentir coisas opostas ao mesmo tempo.
Entusiasmo e luto.
Segurança e insegurança.
Vontade de voltar e de permanecer.
Sem compreender isso, muitas pessoas tentam ignorar.
Se distraem, se ocupam, minimizam.
Mas não é passageiro.
O que começa antes da mudança é uma desorganização interna.
Você ainda está no mesmo lugar, mas já não está emocionalmente nele.
Porque imigrar não é só mudar de país.
É mudar referências, identidade, pertencimento.
Antes de sair, você já começa a perder o que te organizava.
E isso ativa um processo de luto.
Quando não reconhecido, ele aparece depois.
Como ansiedade, irritação, sensação de inadequação ou cansaço emocional.
Muitas vezes chamado de “dificuldade de adaptação”.
Mas, na prática, é falta de elaboração.
Se preparar emocionalmente não é evitar a ansiedade.
É entender o que está sendo mobilizado.
Perguntas simples ajudam: o que estou deixando para trás?
O que espero que essa mudança resolva?
O que em mim fica mais vulnerável aqui?
Isso não impede a mudança.
Mas muda a forma como você chega.
Porque a imigração exige recursos emocionais construídos, não improvisados.
Se você se reconhece nisso, talvez o desconforto não seja um problema.
Talvez seja um sinal.
E, no processo terapêutico, isso pode ser compreendido antes mesmo da mudança.
Um abraço,
Mariana Lellis